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Crise entre México e Equador impacta em toda a região

Fonte: Sylvia Colombo

A polícia equatoriana, a mando do presidente Daniel Noboa, invadiu a embaixada mexicana para prender o ex-vice equatoriano Jorge Glas, violando tratados internacionais

Uma crise diplomática de grande envergadura abre um terrível precedente na América Latina. No último dia 5 de abril, a polícia equatoriana invadiu a embaixada mexicana em Quito e retirou, literalmente carregado, pelos braços e pelas pernas, o ex-vice-presidente do país, Jorge Glas, que está condenado por atos de corrupção. O episódio levantou uma corrente de repúdio da comunidade internacional, mas o governo do presidente Daniel Noboa não se importou, pois crê que Glas é um “delinquente comum”, e que portanto não merece as benesses de ser um asilado político.

Vamos aos fatos e porque isso se trata de um verdadeiro escândalo.

Jorge Glas, é certo, não é nenhum santo. Durante seu período como vice-presidente de Rafael Correa, cometeu vários crimes de corrupção, entre eles o desvio de verbas da petrolífera nacional. A gestão Correa, aliás, não foi um modelo neste sentido. O próprio ex-mandatário hoje vive entre Bélgica e México e não pode retornar a seu país-natal, uma vez que está também condenado por delitos de corrupção. Ambos falam em perseguição política e “lawfare”, e algum elemento disso de fato existiu nesses julgamentos. Mas que ambos têm explicações a dar à Justiça e à sociedade equatoriana é um fato.

Hoje quem governa o Equador é o empresário de direita Daniel Noboa. Com uma peculiaridade, seu mandato é de apenas 15 meses, se trata de um “mandatário tampão”, eleito para completar o ex-presidente Guillermo Lasso, que saiu depois de fricções intensas com o Congresso.

Por conta disso e por conta de a violência estar batendo recordes no Equador, Noboa carrega a bandeira do presidente linha-dura com a criminalidade, em certos momentos imitando o salvadorenho Nayib Bukele e sua política de tolerância zero. O que Noboa tem em mente é passar a imagem de alguém que está resolvendo o tema de segurança dos equatorianos. E sua intenção é reeleger-se, desta vez para um mandato completo, quando este se termine. Daí fazer de todas suas ações um espetáculo midiático.

Pois Noboa resolveu posicionar-se como um anti-correísta engajado em demonstrá-lo publicamente. Ordenou a invasão da embaixada sem tentar esconder que estava cometendo esse ato que vai contra todos os tratados internacionais de diplomacia que garantem a inviolabilidade das embaixadas. 

A tropa que invadiu o local era numerosa, desproporcional à tarefa, e levou Glas para uma prisão local agredindo o ex-vice e também representantes do corpo diplomático mexicano. O país do norte, historicamente conhecido por dar asilo a perseguidos políticos, chiou alto, e as relações entre os dois países estão cortadas.

Por que a atitude de Noboa está tão errada? Porque só é possível entrar numa embaixada estrangeira com uma decisão judicial e com aviso prévio, além disso, jamais durante a noite.

A comunidade internacional rejeitou com veemência o ocorrido, e tanto governos de direita e de esquerda emitiram notas de protesto, como o Brasil de Lula e a Argentina de Javier Milei. Também os EUA e a Organização dos Estados Americanos.

Por que a rejeição? Porque embaixadas estrangeiras são, entre outras coisas, uma garantia para que nacionais de determinado Estado que sintam que seus direitos estão sendo violados peçam refúgio. É absolutamente inadmissível que uma embaixada seja violada para interferir num pedido de asilo político iniciado por outro país. 

Embora o mundo ficasse boquiaberto, muitos equatorianos elogiaram a atitude de Noboa e ele ganhou ainda mais apoio, principalmente entre anti-correístas. Em seu julgamento, um “delinquente” não poderia ter direito de pedir asilo. 

O caso foi o grande assunto do ambiente diplomático da região. É bastante saudável que a rejeição tenha sido praticamente unânime. Por outro lado, o rompimento de relações entre México e Equador terá reflexo nas relações entre os países e prejudicará os cidadãos de ambos.

Do ponto de vista regional, não é nada positivo que justamente esses dois países estejam de costas um para o outro, num momento em que o crime internacional cruza fronteiras. No Equador, tem atuado cartéis mexicanos, enquanto o México é país de passagem dos imigrantes equatorianos que fogem da violência em seu país e buscam refúgio nos EUA, tendo de passar por seu território.

Ambos os problemas, a imigração e o crime organizado transnacional, podem se agravar em toda a região se esses dois países deixam de ter uma boa relação.

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