Brasileiros desconhecem países que falam português, aponta Barômetro da Lusofonia

Fonte: Redação

Ricardo Westin

Publicado em 17/7/2026

Há 30 anos, Lisboa foi palco de um encontro histórico: a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Em 17 de julho de 1996, os mandatários das sete nações que falavam português fundaram a organização internacional, que tem como missão usar o idioma comum para aproximar os integrantes, incentivar a cooperação e as trocas, aumentar a inserção mundial e beneficiar suas populações.

Os fundadores da CPLP foram:

  • Brasil
  • Angola
  • Cabo Verde
  • Guiné-Bissau
  • Moçambique
  • Portugal
  • São Tomé e Príncipe

Hoje são nove os integrantes. Aderiram posteriormente:

  • Timor-Leste, em 2002, logo após sua independência
  • Guiné Equatorial, em 2014, depois que tornou o português uma de suas línguas oficiais — a principal é o espanhol, e o português é falado por 1% da população.

Apesar das três décadas de existência, só agora se fez, pela primeira vez, uma ampla pesquisa de opinião abrangendo os países da CPLP. Trata-se do Barômetro da Lusofonia, que ouviu 5,7 mil pessoas em oito dos países membros. Ficou de fora a Guiné Equatorial, por questões logísticas

O levantamento foi idealizado e executado pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), com sede no Recife (PE). No Brasil, os resultados foram apresentados no Senado, em março.

A pesquisa revelou que, embora os países de língua portuguesa estejam espalhados por quatro continentes (África, América, Ásia e Europa), não façam fronteira entre si e estejam em diferentes níveis de desenvolvimento humano, os problemas que as respectivas populações enxergam em seus territórios são muito parecidos.

Segundo o Barômetro da Lusofonia, elas incluem a saúde, a educação e o desemprego entre os grandes problemas locais e estão insatisfeitas com o andar da democracia em seus países, embora valorizem as eleições.

O historiador Virgílio Arraes, professor de História Contemporânea na Universidade de Brasília (UnB), entende que não se trata de saudosismo das ditaduras ou dos governos de partido único que os países experimentaram no passado:

— Essa frustração decorre da insuficiência social dessas democracias em áreas como saúde, educação, desemprego e violência. Em muitos casos, como o próprio barômetro revela, o desapontamento leva ao desejo de emigrar, na busca por países mais desenvolvidos e menos injustos socialmente.

Lançamento do Barômetro da Lusofonia no Senado (Carlos Moura/Agência Senado)

A pesquisa também indica que, na opinião dos entrevistados, seus governos não estão preparados para enfrentar eventos climáticos extremos, suas sociedades discriminam pessoas da comunidade LGBTQIA+ e a escravidão dos povos africanos é um tema que deveria ser obrigatório nas escolas. Este último ponto só não foi apontado como relevante no Timor-Leste, já que o país nunca foi envolvido no tráfico de escravizados.

Na avaliação do senador Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado, resultados parecidos mostram que o levantamento tem potencial para direcionar políticas públicas em nível nacional e também estimular a aproximação entre os países da CPLP.

O Barômetro da Lusofonia presta um grande serviço ao mostrar as questões em que ainda precisamos avançar. Se compartilhamos a mesma língua e enfrentamos muitos dos mesmos desafios, faz sentido ampliar a cooperação entre universidades, centros de pesquisa, empresas e governos. O barômetro nos permite enxergar mais oportunidades e aprender com experiências que deram certo em lugares que enfrentam desafios muito parecidos com os nossos.

Nelsinho Trad

presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado

A pesquisa também encontrou diferenças significativas nas percepções da população dos diferentes países. A situação das mulheres é considerada inferior à dos homens pela maioria dos entrevistados apenas em Guiné-Bissau, Cabo Verde, Brasil, Angola e Moçambique. Para as populações de Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, inexiste ou existe pouca desigualdade de gênero em seus países.

O racismo, por sua vez, é apontado como problema por uma parcela bem pequena dos entrevistados em Angola, Brasil, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Já em Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, o racismo nem sequer aparece entre as respostas.

Praia de Cabo Verde e paisagens urbanas das capitais de Moçambique, Portugal e Angola (Divulgação, Wikipedia, VisitLisboa, Wikipedia)

O Barômetro da Lusofonia identificou que, de forma geral, os países que falam português conhecem consideravelmente bem uns aos outros. A exceção é o Brasil.

Dos brasileiros questionados sobre outras nações lusófonas, apenas 6% citam a Guiné-Bissau, por exemplo. Dos guineenses, por sua vez, 71% mencionam o Brasil. Como comparação, a Guiné-Bissau é lembrada por 57% dos cabo-verdianos, 41% dos portugueses e 31% dos timorenses.

O único país que a maioria dos brasileiros consegue apontar é Portugal. Ainda assim, trata-se do menor índice entre todas as nações (62%). Portugal é lembrado por 95% dos cabo-verdianos, 84% dos são-tomenses e 83% dos guineenses.

De acordo com o coordenador de Projetos da ONG Instituto Brasil África, Pedro Fontenele, a distância que o Brasil mantém dos demais países lusófonos se explica pela geografia:

— Por sermos um país de proporções continentais, tendemos a olhar mais para o próprio umbigo, ao contrário dos demais países da CPLP. Por causa da ignorância, acabamos enxergando os países africanos com preconceito. Mas a realidade é que estamos umbilicalmente conectados a eles.

Segundo o Barômetro da Lusofonia, não se trata apenas de desconhecimento — também há desinteresse. Dos entrevistados brasileiros, 38% afirmam não ter nenhuma curiosidade por manifestações culturais de outras nações de língua portuguesa. Esse desinteresse não se repete nos outros países. Em Cabo Verde e Timor-Leste, por exemplo, apenas 3% dão a mesma resposta.

Virgílio Arraes, da UnB, explica que, quando conhece melhor os países lusófonos da África, o Brasil conhece com mais profundidade sua própria história, já que a maior parte da população é negra e a escravidão de origem africana foi, por muito tempo, a base da economia brasileira.

Ele ainda avalia que o isolamento é um “contrassenso”, já que o Brasil é o maior país da CPLP e, como tal, deveria ser o condutor do processo de integração. Para ele, trata-se de uma falha estrutural do país.

O nosso ensino simplesmente ignora o fundo comum da lusofonia. É inadmissível que, no ensino médio e na universidade, não existam disciplinas voltadas para esse tema. Não se trata de uma falha pontual, mas de um problema estrutural, que não se limita à lusofonia e se repete na relação com nossos vizinhos sul-americanos. O Brasil não se aprofunda como deveria, desperdiçando oportunidades de integração cultural e política.

Virgílio Arraes

historiador e professor da UnB

O professor acrescenta que, não ocupando a liderança da comunidade lusófona, o Brasil também perde importantes possibilidades de inserção internacional. Se assumisse esse papel, chegaria aos fóruns globais com muito mais autoridade e peso político. Foi justamente por estratégia diplomática, por exemplo, que a Guiné Equatorial decidiu transformar o português em uma de suas línguas oficiais e ingressar na CPLP.

Peça do Museu Nacional da Escravatura, em Angola (Divulgação/Vaticano)

Pedro Fontenele, do Instituto Brasil África, afirma que o continente africano — onde se situam seis dos nove países da CPLP — vem sendo palco de grandes negócios internacionais e que o Brasil está deixando escapar inúmeras possibilidades econômicas.

— A África é hoje o continente que mais cresce em termos econômicos no mundo, com uma média superior à de outras regiões. Diversos países perceberam isso, como China, Estados Unidos, Rússia e nações do Golfo Pérsico, e já estão na África investindo e fechando negócios. É preciso que o Brasil olhe com mais profundidade para esse novo horizonte estratégico, que tem uma enorme projeção de expansão.

Como exemplo de oportunidade, ele cita a Área de Livre Comércio Continental Africana, criada em 2019. Trata-se do maior bloco econômico do mundo em número de países e população. Das 55 nações africanas, somente a Eritreia não aderiu.

Integrante de missão de observação da CPLP acompanha eleições legislativas em Cabo Verde (Divulgação/CPLP)

Na opinião do embaixador de Moçambique em Brasília, Alexandre Manjate, os resultados do Barômetro da Lusofonia devem ser lidos como um alerta de que é necessário investir na difusão do conhecimento sobre a CPLP no Brasil.

É preciso divulgar não apenas discursos, mas também os efeitos práticos dessa organização internacional na vida das pessoas. Caso contrário, a CPLP se reduzirá a conversas entre lideranças. É preciso inverter essa lógica, promovendo um tipo de cooperação que produza benefícios e bem-estar para as populações e tornando essas ações conhecidas. O melhor seria começar pelas escolas, explicando a CPLP, seus ideais, suas iniciativas.

Alexandre Manjate

embaixador de Moçambique no Brasil

A diretora de Pesquisas do Ipespe, Roseane Xavier, lembra que existem no mundo levantamentos semelhantes, como o Latinobarómetro, que todo ano, desde 1995, mede valores e comportamentos da população de toda a América Latina.

De acordo com ela, esta primeira edição do Barômetro da Lusofonia é útil em várias frentes:

— Para governos e organizações, serve como base para políticas públicas, ajudando a compreender a opinião das populações e a orientar decisões. No meio acadêmico, fornece dados valiosos para cientistas políticos e sociais, antropólogos e estudantes da língua portuguesa, permitindo análises sobre comportamento, valores, integração cultural, voto e democracia. Além disso, contribui para dar visibilidade aos países lusófonos, inclusive os africanos com diferentes níveis de desenvolvimento, fortalecendo sua presença e participação no cenário internacional.

Senador Nelsinho Trad, presidente da Comissão de Relações Exteriores (Saulo Cruz/Agência Senado)

Segundo Nelsinho Trad, o Poder Legislativo precisa ser atuante nesse processo de aproximação internacional.

— O Congresso tem um papel importante porque é aqui que os acordos internacionais são discutidos, aprovados e acompanhados para que saiam do papel. Foi isso que aconteceu com o Acordo de Mobilidade da CPLP.

O Senado aprovou esse acordo em 2022, com relatoria de Trad. A medida agiliza a concessão de vistos e autorizações de residência, facilitando a vida de pesquisadores e estudantes de intercâmbio, por exemplo.

Trad avalia que o Acordo de Mobilidade da CPLP deve ser visto como um passo no longo caminho a ser percorrido até uma integração mais forte entre os países de língua portuguesa. Ele aponta o que ainda falta ser feito.

— Precisamos avançar no reconhecimento de diplomas, ampliar a cooperação entre universidades, incentivar pesquisas conjuntas e abrir mais espaço para empresas dentro da comunidade. Também é essencial conhecer melhor a produção cultural e científica dos demais países. Essa troca vai além da cultura e envolve pesquisa, formação de profissionais, inovação e experiências em áreas como saúde, educação e agricultura. Quanto mais nossos países trabalharem juntos, maior será o aprendizado coletivo. Já temos um recurso poderoso que facilita isso: a língua que nos une.

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